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Amor de perdição

 

Contexto histórico:

O Romantismo surge na Europa, no fim do século XVIII, com a publicação de "Os sofrimentos do jovem Werther", do alemão Goethe. É um movimento contemporâneo à independência dos EUA e à revolução francesa, movimentos que contestam a ordem pré-estabelecida de organização social, levam a burguesia ao poder político e iniciam o século XIX com uma grande fé no futuro da humanidade. Afinal, o que se desejava, depois de um século de Iluminismo, era liberdade, igualdade e fraternidade para todos. No entanto, como o passar do tempo esses ideais foram derrubados e deram lugar a desesperança. O que por sua vez justifica as características do ultrarromantismo.

 Portugal na época passava por problemas políticos e sociais, desde a fuga da família real para o Brasil, devido a invasão que Napoleão Bonaparte pretendia fazer em Portugal, até a independência do Brasil em 1822. A sociedade enfrentava uma mudança de pensamentos, que geravam novas posturas políticas e outras formas de enxergar o mundo. Se iniciava uma nova forma liberal de fazer política. Um estado agindo sob uma constituição, uma forma de governo de um país, com poderes constituídos a partir da decisão de cidadãos ou representantes.

A obra romântica foi publicada em 1862 e é amplamente aceita pelos leitores, sendo considerado o primeiro livro mais vendido em Portugal. Isso porque a trama está muito próxima da realidade dos leitores da época. No século 19, os casamentos arranjados e a oposição dos pais aos filhos eram muito comuns. Além disso, o apego aos sobrenomes e a morte em nome da fama também fazem parte do cotidiano, e os fatos criticados pelo narrador mostram a hipocrisia desse comportamento.

 
Biografia:

Camilo Castelo Branco (1825-1890) foi um dos maiores escritores portugueses do século XIX. Suas novelas fazem do escritor o representante típico do Ultra Romantismo em Portugal. Foi um dos primeiros escritores portugueses a viver exclusivamente do que escrevia.

Imagem 01 - Retrato de Camilo Castelo Branco


Nascido na freguesia dos Mártires, em Lisboa, Portugal, no dia 16 de março de 1825. Filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira, ficou órfão de mãe com um ano e de pai com 10 anos. Foi morar com sua tia e depois com sua irmã mais velha. Camilo com apenas 16 anos, se casou em 1841, com uma jovem de 15 anos, Joaquina Pereira, porém logo se desfez do casamento.

Em 1845, publica os seus primeiros trabalhos literários, no ano seguinte, começa a colaborar com o jornal “O Povo”. Em 1846, foge com uma jovem, Patrícia Emília, mas a abandona, alguns anos depois. Posteriormente, sua esposa legitima morre e sua filha também. Em 1850, começa a passar por uma recessão espiritual, consequentemente, entrou no seminário do Porto, visando seguir a vida religiosa.

No mesmo ano, conhece Ana Plácido, casada com comerciante. Em 1859, Ana abandona seu cônjuge e foge com Camilo. Em 1860, são capturados e julgados pelas autoridades por crime de adultério, foram presos, mas no ano posterior são absolvidos, e passam a viver juntos. O casal vai morar em São Miguel de Seide, vivendo com vários problemas financeiros.

Em 1863, é publicado “Amor de Perdição”, novela passional, destacada pelo desequilíbrio sentimental de seus personagens. Na obra o autor transparece o escarcéu de sua situação de adultério pelo amor de Ana Plácido.

Em 1885 recebeu o título de Visconde concedido pelo rei de Portugal, D. Luís I. Em 1889, quando se tornou uma celebridade nacional como escritor, recebeu uma homenagem da Academia de Lisboa.

Camilo Castelo Branco é o representante típico do Ultra Romantismo em Portugal, suas próprias novelas passionais o tornaram personagem da era do Romance. As vivências cheias de turbulências lhe deram inspiração para os temas de suas novelas. Camilo possui uma longa lista de livros e textos publicados, produzindo também ao longo de sua história, poesia, teatro, historiografia, contos, romances e novelas históricas, de aventuras e passionais, se destacando como figura literária nas novelas passionais, que entrou em ascensão em sua carreira.  

Vivendo encurralado de problemas, sofrendo com graves problemas visuais (cegueira e diplopia) que teve em consequência da Sífilis, e os dois filhos que teve com Ana Palácios, um tinha problemas mentais e o outro era rebelde, lhe causaram muito sofrimento. Não aguentando tanto desgosto, aos 65 anos, Camilo cometeu suicídio com um tiro de pistola.

Camilo Castelo Branco morreu em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, no dia 01 de junho de 1890.


Curiosidades:

  • Camilo escreveu a obra em 15 dias, quando estava preso em uma cadeia de Porto
  • A obra é baseada em um caso verídico , de um senhor que estava na mesma cadeia que o autor
  • Ela já foi adaptada ao teatro e ao cinema, incluindo uma ópera 
  • Existe uma edição especial dirigida aos emigrantes portugueses de todo o mundo
  • Foi o primeiro best-seller português, impulsionando Castelo Branco a escrever “Amor de Salvação”, um contraponto.
  • É o romance português mais popular, traduzido em diversas línguas e considerado uma obra-prima da ficção de língua portuguesa.

Recomendações:

Documentário sobre a novela "Amor de Perdição"



Adaptação literal do romance em filme



Pintura feita baseada em "Amor de perdição"

Imagem 02 -  “Amor de Perdição”- Exposição de pintura de Ilda David

 Podcast comentando sobre a novela




Análise da obra

Em primeira mão, analisaremos as estratégias para a construção do posicionamento crítico do narrador.

"Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa, única e inflexível. Alguns prosadores de romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor aos quinze anos é uma brincadeira; é a ultima manifestação do amor às bonecas [...]."(p.26)

Sob o prisma de uma reflexão metalinguística, pode-se considerar essa intervenção como provido de humor, levando o leitor até a rir, porque se ridiculariza uma atitude amorosa, o amor aos 15 anos, que faz parte justamente do ponto central do romance que é narrado. Ao mesmo tempo em que o narrador procede a apreciações críticas e se coloca como um individuo distante dos acontecimentos, ele parece encarregar-se, em determinados momentos, os problemas dos personagens.

"Simão Botelho levou de Viseu para Coimbra arrogantes convicções da sua valentia [...]."(p.24)

"Nos cincos subsequentes dias recebeu Simão regularmente cartas de Teresa, umas resignadas e confortadoras, outras escritas na violência exasperada da saudade" (p.62) 

"Esta é a carta que leu Simão quinze dias depois do seu julgamento" (p.84)

Diferentemente dos dois primeiros trechos, no da página 84 não há intervenção explícita, devido ao narrador trazer com uma neutralidade evidente, sem explicitar necessariamente o que estava escrito na carta. Na página 62, o conteúdo da carta permanece da mesma forma que a Teresa o produziu, porém, antes do narrador revela-lo, o mesmo faz comentários sobre o estado de Teresa.

Na página 68, em uma outra carta, o narrador dá maiores indícios de sua "interferência". Ele destaca as escolhas dos fragmentos que devem ser transparecidos ao leitor:

"Ao anoitecer, Simão, como se estivesse sozinho, escreveu uma longa carta, da qual extratamos os seguintes períodos:[...]."

Notoriamente, no fragmento acima, o narrador evidencia a sua parcialidade, causando a impressão de que o leitor não deve saber de tudo, somente o que o narrador quer que ele saiba.





Referências bibliograficas:














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