Contexto histórico e biografia
A trama de Úrsula trata a princípio da história de amor entre Úrsula, uma mocinha sensível, humilde e desamparada, e Tancredo, um jovem igualmente sensível, afortunado e bem apessoado. O conflito central da narrativa é o tio de Úrsula, Comendador Fernando P, que deseja casar-se com a sobrinha ainda que sem o consentimento da mesma. Para seguir com a história dos seus protagonistas, Maria Firmina dos Reis adota estratégias como o incesto, as coincidências, a idealização do amor e seu impedimento por um vilão. Porém, unido ao primeiro plano, podemos perceber um universo diferente, até então não plenamente representado e pouco retratado em toda literatura do século XIX consagrada: a escravização dos africanos. Justamente nesse ponto a narrativa de Reis ganha em originalidade e se diferencia da bibliografia produzida em sua época. Para construir as personagens negras e escravizadas Túlio, Susana e Antero, a autora praticamente não tem modelos, já que na tradição brasileira do Romantismo que se formava naquele momento, os africanos e afrodescendentes foram propositalmente apagados e ignorados em nome da criação de uma identidade brasileira que pudesse espelhar as ambições étnico-nacionalistas da elite pertencente ao centro do campo literário. É admirável que Maria Firmina tenha dado corpo e voz a personagens negras e que, além disso, elas sejam representadas como seres humanos: pessoas que têm nome, história e memória. Pessoas que discutem entre si o sentido de liberdade – conceito que foi fundamental para as revoluções do século XVIII, e também para a estética do Romantismo.
O romance de Maria Firmina dos Reis, foi escrito em 1858 e é considerado o primeiro romance abolicionista brasileiro de autoria feminina. A escritora é uma mulher que teve acesso à educação mesmo sendo afro-brasileira, então podemos dizer que a educação foi a forma encontrada para que a autora compartilhasse sua visão crítica referente à sociedade em que vivia.
Sabemos que no século XIX, a mulher vivia em condições mais encarceras, sem acesso à educação formal ou à vida cultural e literária do país. O discurso patriarcal do século XIX era bem objetivo: a mulher era desmerecida pelos homens inclusive em sua capacidade criativa, principalmente porque a educação tinha como objetivo formar mães e esposas submissas e subservientes, para agradar e servir ao homem.
Maria Firmina dos Reis fundou uma escola mista, algo que era inédito na época, de acordo com Duarte (2004). Sua educação transformou a formação das mulheres de sua época, o que pode ser comprovado nos relatos dos muitos escritos deixados pela autora, dando importância à reconstituição histórica do papel da mulher na sociedade do século XIX no Brasil.
Análise da obra
"São vastos e belos os nossos campos, porque inundados pelas torrentes do inverno semelham o oceano em bonançosa calma. [...] E sua beleza é amena e doce, e o exíguo esquife, que vai cortando as águas hibernais mansas e quedas, e o homem, que sem custo o guia, uma vaga sensação de melancólico enlevo desprende um canto de harmoniosa saudade, despertando pela grandeza dessas águas, que sulca" (REIS, 1988, p. 15). O trecho mostra que obra possui um narrador em terceira pessoa que inicia a narrativa mostrando ao leitor a paisagem exuberante onde se passará a história. Utiliza uma linguagem poética, por meio da qual a ambientação natural é vista em quase toda a obra. A protagonista vive nesse ambiente natural passado no campo, mas algumas cenas ocupam lugar em um pequeno povoado de nome Vila dos Guimarães, no Maranhão.
"Trata-se de uma personagem com caráter digno e bom, preocupada com a convalescença de sua mãe e despertando-se ao amor do jovem Tancredo; hospedado em sua casa para recuperar-se de um acidente. Ela é uma jovem que possui os encantos da adolescência, assim, na sua singular pureza, desperta também a paixão do rapaz. Vejamos outras passagens do texto que também caracterizam a personagem: '[...] Imergida em sua meditação, às vezes esquecia-se de si própria para só pensar no seu Tancredo. [...] punha-se a entalhar na árvore, testemunha da primeira ventura, o nome de Tancredo' " (REIS, 1988, p. 124). O narrador caracteriza ela como uma personagem afetiva, com receio de perder a mãe, transferindo no decorrer da trama o sentimento de amor para Tancredo. A literatura romântica apresenta muita valorização do sentimento, portanto percebemos muita sensibilidade nos personagens.
"[...] O comendador P... foi o senhor que me escolheu. Coração de tigre é o seu! Gelei de horror ao aspecto de meus irmãos... os tratos , por que passaram , doeram-me até o fundo do coração! O comendador P. derramava sem se horrorizar o sangue dos desgraçados negros por uma leve negligência, por uma obrigação mais tibiamente cumprida, por falta de inteligência!" (REIS, 1988, p. 118). Nesse trecho, pela primeira vez na literatura brasileira, foi narrado o discurso da escravidão pelo ponto de vista dos escravizados, denunciando o conquistador europeu.
Sugestão de conteúdo adicional
Podcast: https://open.spotify.com/episode/1EtF34U9l2O9LyRoWRWWp9?si=6VRVfodbR22gjlczMhOEJg&utm_source=whatsapp
Vídeos: https://youtu.be/8L7Vi85gAlU
https://youtu.be/njGiVZ2Dymw

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